sábado, 11 de agosto de 2012

Insónia #1

- Levanta-te amor, hora de acordar! - dizia docemente a minha mãe antes dos meus olhos finalmente abrirem, por entre a vontade incontrolável de continuar naquele sono reconfortante.
Por entre birras silenciosas, punha-me a pé, lavava a cara, escovava os dentes, vestia uma roupa qualquer - sim porque para mim tendências nunca foram um cliché - e seguidamente sentava-me na mesa da cozinha a espera das torradas com manteiga e do leite achocolatado com que todas as manhãs ela me premiava, quem sabe só por eu existir, ou só porque sim.
Sentava-se do meu lado, e comia como sempre um pão integral, intacto. Fazia-o por entre o som do silêncio, e  sorrisos deslumbrantes que escapavam do cabisbaixo em que sempre se encontrava. Para o meu pai, frutas, leite, pão com mel, como ele desejasse. Jamais me questionara o porquê daquela distinção.
A minha mãe era uma mulher suave, discreta, meio que amedrontada, bonita e de olhos cor de avelã. Estas características só o tempo e a maturidade me deu possibilidade de apontar. E talvez naquela altura ela fosse simplesmente a minha mãe. E por detrás dessa palavra, muitas características estão presentes. E deixo que pensem na minha mãe, como a vossa, e lhe atribuam as marcas positivas que quem vos trouxe ao mundo possui. Porque mais que um livro, isto será uma conversa .
O meu pai... bom, o meu pai era um homem severo, o seu rosto emanava respeito. E contrariamente á minha mãe, essas eram as características que mesmo em criança sempre lhe atribui. Homem severo. Necessidade de respeito. Pouco social. Porém, o meu pai, e gostava dele desse jeito. E as crianças são isso mesmo, por essa razão não odeiam. São crianças.  

A minha escola ficava a cerca de 1.000 metros da minha casa, por isso fazia o percurso a pé. A minha mãe ficava à janela até perder-me o rasto no horizonte. Sei-o porque sempre lhe acenava até deixar de ter a possibilidade de a ver. Todos os dias, sempre o mesmo ritual. E eu jamais me cansara, era das poucas oportunidades que tinha de a ver sorrir, com aquele sorriso rasgado, raro mas indescritível. 


 * * * 
A caminho encontrava o Jordan o meu grande amigo de infância, desde que na minha curta memória existiam recordações eu sempre me lembrava de estar junto dele, éramos como irmãos, inseparáveis. 
Jordan era exactamente o meu oposto, e acho que por essa razão, eu me identificava tanto com ele. Meio que contraditório mas era assim mesmo. Tinha o cabelo castanho, eu loiro, os seus olhos eram castanhos, os meus azuis, era alto e eu baixo, gordo e eu magro, rico e eu pobre. Mas era o seu interior que nos unia. Das pessoas mais fantásticas que o mundo nos trouxe a conhecer, era uma criança é certo, mas humilde, educado, e extremamente fiel. Na minha ideia, naqueles tempos eu achava-o porque jamais nos chateávamos por causa de raparigas. Se eu gostasse dela, e esta quisesse estar nos braços do engatatão Jordan, ele simplesmente a ignorava, e dias depois eu também. Era-mos crianças. Porém creio que é nesse momento que se delineia um futuro, e é na tenra idade que se separam os bons dos maus. E esse ideal, essa filosofia de vida, ainda hoje me acompanha...

Esperei mais do que o habitual por ele,  costumava ser pontual mas esse atributo fracassou naquele dia. Porém eu não iria para a escola sem ele, aquela fidelidade e companheirismo que acima descrevi visionava-se em todos os pontos, e esse provavelmente seria apenas mais um. 
Passados uns 15 minutos, já atrasados, ele saiu a correr, um um sapato de peles tailandesas numa mão, enquanto tentava equilibrar-se para calçar o outro. Olhou-me e sorriu.
- Desculpa Morgan, a minha mãe adoeceu, o médico esteve lá em casa, e eu perdi-me com as horas. Que irresponsabilidade da minha parte! - disse-o com um ar tão adulto que quase me surpreendera. Mas ele sempre era assim, sempre bastante intelectual em tudo o que dizia, e em todos os seus atos, uma das grandes qualidades que possuía também, e que o seguiu por mais anos. E era um tanto incomum para uma criança daquela idade.
- Está tudo bem? Não faz mal, vamos, se o meu pai descobre, não quero nem imaginar o que me acontece! 
Encolheu os ombros em relação a pergunta que fizera, assentiu e seguimos caminho até a escola. 



CF.

4 comentários:

  1. Vou seguir a tua historia, gostei do capitulo (:

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  2. Gostei do primeiro capítulo , obrigada por deixares a tua opinião no meu blog , ainda bem que aquelas palavras ajudaram , beijinho e mal conseguir vou ligar o computador para conseguir seguir-te (;

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  3. Muito obrigada :) Ainda não sei quando vou postar o final porque estou sem ideias. Vou acompanhar com certeza :)

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